“O meu objetivo é não ter medo de nada”

Na edição digital do jornal Campeão das Províncias, do dia 28 de Outubro de 2020, na rubrica Saúde Mental, foi publicado o artigo, da autoria de Cátia Barbosa, com o título “O meu objetivo é não ter medo de nada”. Neste artigo, que a seguir se reproduz, é apresentado o testemunho de quem vive de mãos dadas com problemas do foro psicológico e como a APPA pode ajudar a ultrapassar estes problemas.

Portugal é o segundo país
da Europa com a taxa
mais elevada de doenças
psiquiátricas
“Portugal é o segundo país da Europa com a taxa mais elevada de doenças psiquiátricas” fonte: Campeão das Províncias

“Acreditamos mesmo que vamos morrer”. É desta forma que Jéssica Meireles descreve o que sente desde tenra idade. Os ataques de pânico acompanharam-na toda a vida, tornando-a prisioneira de si mesma. “Não conseguia sair de casa para fazer rigorosamente nada, porque andar 5 ou 10 metros já me fazia sentir imensa falta de ar e, consequentemente, ter ataques de pânico e aquela sensação de morte eminente”, afirma.

Jéssica sofre de ataques de pânico desde os três anos de idade e, por isso, nunca soube o que é ter uma vida completamente livre.

“Trabalhar sempre consegui, com excepção da ida para casa em que, grande parte das vezes, me sentia mal e tinha ataques de pânico e de ansiedade”, revela. Esta patologia traz-lhe a sensação de que pode morrer a qualquer instante, já que “o coração acelera de tal forma que a pessoa sente mesmo que vai desfalecer”, confessa.

Jéssica Meireles é apenas um dos muitos rostos que vivem de mãos dadas com problemas do foro psicológico. Ana Santos, fundadora da Associação Portuguesa das Perturbações da Ansiedade (APPA) sublinha que “há cada vez mais pessoas a sofrer desta patologia”, acrescentando que “mais de milhão e meio de portugueses sofre de uma perturbação de ansiedade”.

Formada em serviço social e com uma pós-graduação em ciências da família, Ana Santos sempre conviveu com pessoas que vivem com esta doença. Apercebendo-se de que havia necessidade de criar algum tipo de apoio para estes doentes, Ana Santos decidiu juntar-se a Teresa Fortes, psicóloga social, e fundar a APPA. “A pessoaque sofre de ansiedade, por vezes, não tem o acompanhamento desejável e permanente, porque o Serviço Nacional de Saúde (SNS) não consegue dar uma resposta eficaz e efectiva”, afirma Ana Santos.

Se a APPA se foca em patologias associadas à ansiedade, a “Pineapple Mind” abre o seu leque a qualquer problema relacionado com saúde mental. Esta associação nasce pelas mãos de Diana Pereira, com o desejo de passar a mensagem de que “a mente também dói”. “O que nós tentamos fazer é divulgar informação credível e que seja simples de perceber tanto para as pessoas que nos seguem como através de palestras”, afirma a presidente do projecto. Nesse sentido, a estudante do último ano de Medicina, tenta adaptar cada palestra ao público-alvo a que se dirige. A ambição passa ainda por “dar palestras em empresas, falar da produtividade e do modo como ela se relaciona com a saúde mental”, acrescenta.

“NÃO É AO NÃO FALAR DE UM TEMA QUE ELE DESAPARECE OU SE RESOLVE SOZINHO”

Lúcia Menezes conhece bem esta realidade. É coordenadora de sensibilização,

na “Pineapple Mind”, e considera que esta “é uma boa oportunidade para poder colocar os meus conhecimentos em prol de quem necessita”.

Nesse sentido, a psicóloga acredita que é importante falar sobre saúde mental, sobretudo, porque “apesar dos esforços em tentar acabar com o estigma, ele ainda existe na sociedade”. Diana Pereira concorda com a colega e crê que esta temática ainda é um tabú. “Há pessoas que ainda têm a mente muito fechada e, precisamente pela falta de informação que lhes chega, ainda têm alguns preconceitos quanto a esta área”, afirma.

A verdade é que o preconceito a que Diana se refere é sentido por quem vive este tipo de patologias. É o caso de Jéssica Meireles. A jovem conta que nunca partilhou a sua luta contra os ataques de pânico com colegas ou amigos. “Eu tentava sempre esconder, até porque, na escola, o ‘palhacinho’ do grupo era eu e tinha receio de perder alguma credibilidade perante eles”, confessa, acrescentando que “sinto, realmente, que somos olhados de lado. Somos muito desvalorizados”.

Com o propósito de apoiar casos como o de Jéssica, a “Pinneaple Mind” dispõe de um corpo juvenil, constituído por voluntários que já enfrentaram algum tipo de patologia ou que, simplesmente, se interessem pelo tema da saúde mental. Estes jovens são, assim, o ombro amigo de quem os procura para desabafar. “Tentamos emparelhar as pessoas consoante a patologia, idade ou sexo, de forma a que possam ensinar coisas um ao outro. É uma partilha”, afirma Diana Pereira. Além disso, a associação usufrui de várias parcerias para que, sempre que necessário, as pessoas sejam encaminhadas para profissionais da área.

Lúcia Menezes orgulha-se de dizer que este projeto tem a vantagem “de sensibilizar para a saúde mental” e que “não é ao não falar de um tema que ele desaparece ou se resolve sozinho”. Segundo a jovem, em Portugal, as entidades responsáveis têm enfrentado diversos desafios no que diz respeito a este tema. “Os meios não esticam e a realidade é que existem muitos pedidos de ajuda. (…) Não existem ainda muitos psicólogos, pelo menos no SNS, para fazer face ao que é necessário”, refere.

“MENTE SÃ, CORPO SÃO”: IMPORTÂNCIA DE CUIDAR DA SAÚDE MENTAL

A aprendizagem sobre como olhar para o tema da saúde mental vai além do simples facto de se falar sobre ele. Ana Santos alerta para a necessidade de estudá-lo e compreender as suas necessidades. “Cada vez mais, as pessoas tomam medicação para combater a ansiedade e nós sabemos que a medicação não é suficiente”, esclarece. A fundadora da APPA defende que este tipo de esclarecimentos devem ser transmitidos através de campanhas de sensibilização. “É necessário alertar para estas questões da saúde mental e alertar para a quantidade excessiva de fármacos que as pessoas tomam para atenuar as doenças”, afirma.

Desde que os ataques de pânico tomaram conta da sua vida, Jéssica Meireles não desistiu de procurar ajuda. A experiência leva-a a acreditar que o tema da saúde mental não é tratado da forma correta. “Estivemos sempre habituados a curar qualquer tipo de doença com medicação”, afirma. A jovem garante ainda que sempre que procurou auxílio foram-lhe receitados comprimidos e que, à medida que o tempo passava, estes foram deixando de surtir efeito e a situação foi-se agravando.

Recentemente, Jéssica alargou as suas pesquisas e descobriu a psicanálise. Depois de ler e ouvir vários testemunhos de pessoas que enfrentam a mesma batalha, a jovem decidiu recorrer à “Clínica da Mente” e garante que, em apenas duas sessões, alcançou resultados que a medicação nunca lhe permitiu atingir.

“Eu posso dizer que saí do trabalho e acabei por não ir para casa. Estou no shopping”, refere entre risos. Feito que, antes, não lhe passaria sequer pela cabeça. “Eu saía do trabalho, apanhava o autocarro e ia a correr para casa”, recorda.

Atualmente, Jéssica confessa que sente “mais confiança” e que, aos poucos, começa a alcançar a liberdade com que sempre sonhou: “O meu objetivo é não ter medo de nada”.

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